O quão resignados somos? O quão cegos somos? O quão controlados pervertidamente somos? Creio que muito. Quando me permito dizer(escrever) o que escrevi na frase anterior, é porque observo que o cotidiano das ações, opiniões e comportamentos produzidos pelos indivíduos e grupos viventes do planeta terra - não, não conheço extraterrestres e não sei se isso ocorre com eles - expressam muito de um senso-comum que, embora pareça muita vezes consciente e original, é uma reprodução como que fabricada pela lógica onipresente que influencia de maneira fantasmagórica o nosso cotidiano. Na verdade é uma fábrica de ideias e valores que precisam ser introduzidos e reproduzidos pela sociedade, e quando digo "precisam" quero dizer que alguém, alguns, mais precisamente, almejam que isso seja preciso e trabalham muito para isso. É claro que esses alguns são os detentores do poder, aqueles que controlam, que manipulam, que lucram, que enchem a barriga - os filhos da puta, melhor dizendo. Eles sempre houveram, o mundo sempre foi injusto e cruel, desigual e selvagem, egoísta e oligárquico, nada disso é novidade na sociedade global terrestre. O que é novidade é a necessidade e o uso desse domínio das ideias, a famosa manipulação de que todos falam. De certa forma ela sempre houve, mas nada chegou perto do nível e dos artifícios que acompanham o mundo atual. Isso é algo típico da pós-modernidade. Antes não era necessário mentir para alguém que é bom trabalhar exaustivamente 16 horas por dia, que é digno e faz bem para a alma, simplesmente chicoteava-se a criatura, ou a deixava morrer de fome e não havia conversa. Hoje é necessário que se esteja motivado e satisfeito com as situações propostas pelos opressores tentáculos que sustentam a injusta pirâmide social contemporânea, exatamente porque é necessário ter vontade, ter o "livre arbítrio" de comprar algo, de consumir um produto, uma ideia, um entretenimento - daí também a motivação para o trabalho, pois precisa-se trabalhar para poder comprar. Mas daí vem o porquê da tendência de controle subjetivo dos cérebros; não basta produzir, o mundo precisa fazer girar a dita produção, precisa liquidar com a produção, para produzir-se mais, não para matar a fome - lógica absurda, mas pouca discutida - olha a resignação aí novamente!
O fato é que esse controle do inconsciente e do consciente coletivo e individual(não o deixa de ser) é algo bem mais profundo e perigoso do que parece: não fica só no campo da manipulação explícita e midiática, agarrando um público frágil e inocente, ele ataca de maneiras quase invisíveis, ou melhor, tão visíveis que é difícil distingui-lo em meio aos acontecimentos. Essas "forças ocultas" as quais muitos chamam de paranoia(e isso é um bom exemplo de ideia fabricada)agem, naturalmente, em todos as classes sociais, logicamente que de maneiras diferentes, e ditam a maneira de pensar e de questionar - isso mesmo, a maneira de questionar. Não só a maneira mas o quê se questionar. O que questionamos? O que as pessoas questionam, em geral? Questionamos qual é o melhor refrigerante, Pepsi ou Coca? Questionamos quem canta melhor, Michel Teló ou o meu cachorro?(eu não tenho cachorro)Questionamos até mesmo se devemos namorar esta ou aquela pessoa, se devemos comprar este ou aquele carro. Questionamos, perguntamos, comparamos merda com bosta. E é isso o que está programado e planejado para questionarmos: nada - não questionamos, não refletimos, não crescemos, não evoluímos, não desenvolvemos uma sociedade melhor, para vivermos melhor, mais felizes, mais justamente. Está escrito que devemos refletir sobre coisas bobas, ou coisas que nos façam gastar mais dinheiro com coisas bobas. O problema é que achamos que somos inteligentes, autênticos, poderosos, livres, daí o subjetivo da coisa; a dominação consiste em nos limitar mas dar-nos a sensação de que estamos livres, de que não estamos sendo limitados, de que estamos em êxtase e em evolução, disso surge uma das principais formas de controle indireto, o entretenimento.
O entretenimento é a maneira mais fácil e prática, e até pode se dizer que habilidosa, de produzir cidadãos resignados no mundo. Tudo precisa entreter, a informação e o conhecimento não servem mais, não são "legais" - ideia invisível, mas onipresente. Constata-se facilmente esse fato quando observa-se os filmes em cartaz nos cinemas: basicamente blockbusters com efeitos especiais e comediazinhas românticas mamão com açúcar. Livrarias: auto-ajuda, historinhas infanto-juvenis repetitivas e melodramáticas, "como ser rico", biografias de padres, romances de patricinhas "independentes", etc. .Música: instrumental e letras que a minha irmã, com uma semana de aulas de violão, provavelmente comporia na sua fossa adolescente tosca. Já outras não consigo imaginar como alguém que tem um cérebro funcionando em frequência mínima consegue pensar em criar ou, melhor dizendo, defecar. Sobre a TV eu sequer vou comentar.
Tudo o que hoje representa a arte, que por muito tempo foi e deveria ainda ser uma maneira de expressar e representar críticas e reflexões, a partir da visão do artista, tornou-se mera repetição de clichês, rostinhos bonitos e fórmulas sensacionalistas que não representam porra nenhuma. Não existem mais artistas no mainstream - com o qual a GRANDE parcela da população se relaciona -, existem produtores, publicitários, modelos, técnicos de efeitos especiais. O próprio teatro hoje é palco para o tão amado stand-up, que até tem suas qualidades, mas onde estão as peças dramáticas? As pessoas não as querem mais, apenas querem rir, não querem se sentir desconfortáveis, contrariadas, está tudo bem no conforto resignado e, principalmente, entretido. O problema é que esse entretenimento, seja das diversas formas nas quais ele se apresenta, finge ter ainda aquela mesma função de passar informação, cultura, reflexão, passa essa imagem para as pessoas - que pensam que ler "Crepúsculo" ou "O monge e o executivo", assistir "2012" estão se tornando mais cultas e informadas, quando na verdade estão consumindo filosofia barata, draminha sem propósito. Mais um aspecto intrigante é que essas 'obras' ajudam a disseminar e interiorizar comportamentos e visões alienadas, tendências e padrões que parecem progressistas e certos, mas são apenas a continuação e o desenvolvimento de um pensamento superficial e conservador, no sentido mais negativo da palavra. O tipo de pensamento crítico relevante para o que vivemos não é reproduzido nos grandes meios de comunicação ou nas produções pseudo-artísticas, esse pensamento é, indiretamente, depreciado, aos poucos vai definhando e sendo deixado de lado, esquecido, ninguém lembra de fazer questionamentos importantes e incisivos, isso torna-se bobagem, porque parece que não faz mais parte do cotidiano. A discussão de ideias é vista com maus olhos, mesmo nas escolas - outro tema no qual não vou entrar senão estenderia-se muito o texto.
Resume-se então que não temos autonomia de fato. É mais como uma autonomia fantasiada, maquiada pelos que sabem e querem maquiá-la, falsa, não existente, apenas teórica. Somos abobados e nos tornamos cada vez mais abobados, por preguiça e submissão - sem esquecer da ganância sanguinária e egoísta dos que gostam de pisotear multidões, por pura luxúria; enfim, falha coletiva, colossal. "I wish i was special, so fucking special, but i'm a SLAVE."(livre adaptação), quando se toma consciência dessa realidade, por mais que ela seja pessimista e exagerada, pode-se buscar um crescimento mais real, uma vida mais feliz, justa. Há muitos outros aspectos sobre os quais eu poderia dissertar aqui nesse texto com relação a esse tema, mas vou parar por aqui; não sou tão pretensioso e as pessoas não gostam de ler textos longos.
Somos ingênuos, mas não somos inocentes. Não nos resignemos.
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