quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A Bondade é inerente ao homem?

  Essa é uma dúvida histórica, e que ainda não foi solucionada. Embora seja verdade que algumas pessoas costumam ter conceitos formados quanto a essa e outras questões, fica claro que nesse caso não há um consenso geral, ou pelo menos uma convenção que acabou esmagando uma minoria de pensamento contrário. Thomas Hobbes foi um dos que concretamente se expôs acerca do assunto, posicionando-se ferrenhamente do lado dos que pensavam que o homem é maldoso por natureza, e que, inclusive, necessitava de um Estado que o controlasse e mantivesse a paz entre todos os indivíduos, pois, sendo maus e egoístas, degladiariam-se sem controle se tivessem uma liberdade sem limitações e sem leis. E de fato as ideias de Hobbes foram bem aceitas e influenciaram todo o rumo da História moderna - e inclusive o que vivemos hoje.

  Recuso-me a aceitar uma ou outra resposta hoje, seja por falta de conhecimento ou de experiência, ficando apenas no campo da reflexão. A evolução das sociedades me faz pensar que o homem é inerentemente ruim, é só olhar pra ela e ver que só muito recentemente vivemos numa aparente paz democrática - e olha que isso é muito discutível! -, pois há pouco mais de 100 anos ainda nos tratávamos como escravos, objetos do próprio luxo(e é bem ingênuo da minha parte achar que esse cenário mudou absurdamente), só pra citar o fator mais explícito da degradação do homem pelo homem; não terminaria nunca esse texto se tratasse de escrever todos os sinais que teoricamente colaborariam argumentativamente para provar o egocentrismo cruel do ser, pois, desde que se tem História escrita, há déspotas, oligarquias no poder, escravos, guerras. Mesmo na tão celebrada e intelectual Grécia A.C. havia escravos, por exemplo. Por que então os gregos, sendo tão sábios e justos, inteligentes e democráticos, tão estudados até hoje, eram, entretanto, "maus"?

  É interessante que, mesmo com toda essa factual paisagem demonstrativa, eu não consiga acreditar que a Bondade não é inerente ao homem. Não que eu acredite no contrário, não que eu seja um otimista cego, mas o que diverge dessa conclusão é a minha própria experiência. Não posso dizer claramente que conheço muitas pessoas as quais são bondosas e indubitavelmente justas, mas posso dizer que eu sinto asco de ser ruim; é claro que eu tenho inveja, raiva, penso em querer o mal a outro, mas procuro sempre afastar tais sentimentos e pensamentos - que são inclusive lúcidos. E não é por manter uma moral comigo mesmo ou por temer a Deus que o faço, é simplesmente porque sei, ou penso, conscientemente, que as pessoas não devem sofrer injustamente, que todos devem ter as mesmas chances, que a dor é ruim, não importa a quem. Então, presumo que sou um indivíduo conscientemente bom, com um conceito de justiça e liberdade aparentemente claro - superficialmente falando.

  É lógico que as minhas concepões tendem a mudar bastante por conta da minha pouca idade e ideias plenamente flexíveis, mas por que, teoricamente, sou bom(tenho a noção clara de que essa palavra tem certa subjetividade)? Por ser eu um homem(no sentido de ser humano)? Pela minha formação pedagógica? Pelo conhecimento que busquei? Pela minha genética? Pela aleatoriedade do universo?! Será que se eu vivesse na nobreza do século XVI ou na "democrática" Grécia Antiga eu seria cruel?(tudo indica que sim).

   E é nesse ponto que eu esbarro. Se nas sociedades nas quais vivemos atualmente o homem fosse plenamente piedoso e justo, essa pergunta provavelmente seria respondida com facilidade: Encontrou-se a sociedade ideal e democrática na qual, por ter o homem conseguido desenvolver técnicas e tecnologias que possibilitam alimentar e prover qualidade de vida a todos os viventes do planeta, as pessoas se respeitam e não mais se violentam, não mais buscam explorar, por pura ganância, a outros que antes nasciam já destinados à exploração. Seria uma resposta muito plausível, muito lógica. A manutenção da exploração desumana - veja que ironia essa palavra -, apesar do estado formalmente democrático e justo, é o que na verdade cria essa dúvida a qual intitula o texto. Por que as pessoas continuam a demonstrar perversidade, mesmo não precisando mais disso para sobreviver?

  Há quem diga que o sistema capitalista mantém o homem cruel, mas então ainda não chegamos a um sistema que permita que as pessoas sejam verdadeiramente justas e boas, pois essa é a forma de Estado que melhor promoveu as leis que permitem a liberdade e a igualdade e a que "mais humanitariamente e criteriosamente" puniu os que promovem a desordem.(deixando claro que ser o melhor sistema já utilizado não significa ser verdadeiramente de qualidade ou o melhor possível)

Há quem diga - seriamente - que a falta da crença em Deus faz o homem mau, mas essa hipótese pode ser descartada facilmente quando olhamos para os atos de pessoas teístas durante toda a história e inclusive na contemporaneidade. Eu, como agnóstico moderado, posso dizer que essa é uma concepção bem estúpida, ainda mais contando com a atual cena religiosa, notadamente no Brasil, que prega a ignorância e a intolerância.

  Há quem diga ainda, e eu tendo a pensar assim, que o conhecimento é o que torna o homem bondoso, essa é uma ideia bem cabível, mas infelizmente ainda há barreiras para tomar essa como uma ideia absoluta. É facilmente visível que uma grande parcela das pessoas que detêm o conhecimento, que têm o pleno acesso a ele e a instrução necessária para compreendê-lo, no mundo capitalista como em todos os outros "mundos" da história, utilizam essa "sabedoria" para explorar os menos instruídos, de maneira arrogante e extremamente deprimente.

  Espero ainda entender melhor essa relação, talvez com a ajuda da psicologia, da filosofia, da literatura e da própria história, além é claro da experiência da vida, que é também um fator essencial para o entendimento e o desenvolvimento do conhecimento, da ciência e até da metafísica.

 Desculpem-me, mais uma vez, por um texto que não dá respostas. Mas que pelo menos, pra quem tiver a paciência e a falta do que fazer,  que essa postagem traga um mínimo de reflexão quanto ao tema em questão, que entendo ser muito valioso.

A pergunta fica na tela para quem se atrever a responder: a bondade não vem de berço do homem, mas se constrói a partir de fatores posteriores? Ou sera que ela é destruída pelos fatores exteriores, vindo em princípio de nascença, juntamente com a pureza do Ser humano?